Cerca de 227 mil alunos fazem exames antes de as aulas terminarem

Provas de Português e de Matemática do 4.º e 6.º anos de escolaridade são feitas esta semana. Cerca de 10 mil professores vigiam os exames que, para a tutela, permitem verificar quais os conhecimentos consolidados nos dois primeiros ciclos de ensino
Os dias são de ansiedade, de livros abertos, de perguntas na ponta na língua, de respostas que se procuram nos cadernos, de dúvidas que se partilham na sala de aula. O pontapé de saída dos exames do 1.º e 2.º anos do Ensino Básico foi dado esta segunda-feira de manhã. Cerca de 103 mil alunos do 4.º ano de escolaridade tiveram à sua frente um teste de 16 páginas às 9:30 em ponto da manhã. Na terça-feira, será a vez de cerca de 114 mil alunos do 6.º ano fazerem o exame de Português. Os do 4.º ano fazem o exame de Matemática na quarta-feira de manhã e os do 6.º ano na quinta-feira, também de manhã. Ao todo, mais de 226 mil alunos fazem as provas que têm um peso de 30% para a nota final do aluno.

Cerca de 10 mil professores estão destacados para vigiarem as provas que, para o Ministério da Educação e Ciência (MEC), são instrumentos que permitem verificar os conhecimentos consolidados durante os dois primeiros ciclos da escolaridade obrigatória e quais as matérias em que os alunos têm mais dificuldades. Os resultados são afixados a 16 de junho. Depois disso, está previsto um período de acompanhamento extraordinário para os alunos que reprovem na primeira chamada e tenham de ir à segunda etapa marcada para julho. Este acompanhamento mais individualizado decorrerá de 18 de junho a 8 de julho.

“Após a realização das reuniões de avaliação, já com o conhecimento e com a ponderação dos resultados da  primeira fase das provas, aos alunos que não obtenham aprovação final será possibilitada, com a concordância dos encarregados de educação, a frequência daquele período, que decorrerá até 8 de julho”, afirma o MEC em comunicado. O Ministério garante ainda que os alunos com necessidades educativas especiais têm condições específicas para fazerem as provas, como suportes em Braille, com ampliação, em formato especial (DAISY) para alunos de baixa visão, leitura orientada do enunciado, mais tempo de tolerância, equipamento ergonómico, fichas para disléxicos ou testes adaptados ao nível de escola.

Nesta segunda-feira de manhã, Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas e diretor do Agrupamento de Escolas Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, notou muita ansiedade não nos mais pequenos, mas nos adultos. “Pais e mães estavam mais ansiosos do que os alunos”, conta ao EDUCARE.PT. Do lado dos adultos, houve quem lhe dissesse que não tinha pregado olho durante a noite. Aparentemente, os mais novos estavam descontraídos, seguros de que tudo ia correr bem. “Eles praticaram e estudaram. Os miúdos já tinham interiorizado esta obrigatoriedade.” Por outro lado, os cálculos estão feitos e são conhecidos por todos: os exames desta semana valem 30% da nota final. Uma percentagem que acaba por ser relativizada por muitos.

Tudo correu conforme planeado no arranque dos exames nacionais dos alunos do 4.º ano. Mas há algumas questões que se levantam. Filinto Lima fala no timing das provas e nas alterações do quotidiano escolar que colocaram milhares de alunos sem aulas nos dias em que as provas são realizadas. “Na maior parte das escolas, os alunos do 5.º, 7.º, 8.º e 9.º anos não puderam ter aulas na maior parte das escolas”, refere. O responsável nota, por outro lado, discursos incoerentes. “Não podemos ser bipolares. Antigamente, muitos queixavam-se que não havia rigor e agora queixam-se que não devia haver tanto rigor”, refere.

Este ano letivo é assim, para o próximo não se sabe como será. Filinto Lima lembra que o país vai a votos em outubro e receia que haja mais mudanças no mundo escolar. “Temo que venha outro governo e que, mais uma vez, mude tudo. E isto é que não está bem.” Por isso, defende que todos os partidos se entendam em relação a esta matéria para que não hajam perturbações no ano letivo.

Segundo Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, o início desta época de exames nacionais decorreu dentro da normalidade. O problema é a data. “Os exames não deviam ser feitos nesta altura, mas no fim do ano letivo”, refere ao EDUCARE.PT. O argumento da tutela não o convence. Fazer as provas nesta altura para que os alunos que chumbem na primeira fase tenham tempo para recuperarem na segunda fase é, em seu entender, “uma falácia”. “Não é possível recuperar em algumas semanas o que não foi possível fazer em nove meses ou em dois ou três anos”, diz. Os exames nesta altura trazem outro problema. Depois das provas feitas, os alunos do 1.º e 2.º ciclos terão a mesma disponibilidade para aprender do que até aqui? “Vai ser difícil tê-los na escola porque estarão em processo de descompressão”, diz Manuel Pereira.

Para Jorge Ascenção, presidente da CONFAP – Confederação Nacional das Associações de Pais, é    necessário pensar em muitas coisas e por parte de vários intervenientes, desde o Governo às famílias. “Para que é que serve a avaliação e o que se faz com ela?”. Esta é umas das questões basilares neste momento. “É preciso pensar bem este processo de educação-aprendizagem que impomos às crianças e aos jovens”, afirma ao EDUCARE.PT. A avaliação, para a CONFAP, é necessária, a questão é como o processo está a ser feito. E se há uma avaliação para selecionar, então porque é feita no final de cada nível de ensino e não é feita no final de cada ano letivo?

Por outro lado, as escolas sentem a pressão dos rankings que serão publicados com as médias dos resultados destes exames. Escolas e famílias preocupam-se então com as notas e com um processo que, de certa forma, está padronizado. Certo é que todos têm de estar preparados. Jorge Ascenção considera, portanto, que é preciso entender para que serve essa avaliação. E porque não, sugere, fazer uma avaliação poucas semanas depois de um ano começar para perceber, logo no início, se o processo está ou não ajustado aos alunos? Ou seja, como o processo deve ou não ser feito.

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