CARTA ABERTA DO ALUNO JOÃO ALVES SILVA AO SENHOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO NO ÂMBITO DAS OBRAS DE REQUALIFICAÇÃO DA ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DE PADRÃO DA LÉGUA

CARTA ABERTA DO ALUNO JOÃO ALVES SILVA AO SENHOR MINISTRO DA EDUCAÇÃO NO ÂMBITO DAS OBRAS DE REQUALIFICAÇÃO DA ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA DE PADRÃO DA LÉGUA

 

EX mo Senhor Ministro da Educação,

 

Sou, há quase seis anos, estudante no estabelecimento de ensino que se chamava, quando nele inicialmente ingressei, Escola Secundária de Padrão da Légua (ESPL). A minha entrada nesta escola deu-se em 2010, para iniciar o terceiro ciclo, apesar de a escola onde estava anteriormente me dar a possibilidade de lá o completar.

Porque decidi, então, transferir-me para uma outra instituição, abandonando colegas, funcionários, professores e todo o conforto de um ambiente conhecido para entrar num outro, estranho e incógnito, com a necessidade de nova readaptação e reintegração? A resposta é simples, já que a reputação da ESPL falava por si mesma, mais ainda para mim, que tenho duas irmãs que eram, na altura, nela alunas: uma escola grande, aberta aos alunos, com oportunidades em abundância para quem as quisesse agarrar, e possibilidades de provar e aplicar talentos, capacidades e aptidões.

Isto era, na minha mente, uma ideia vaga, quando inicialmente ingressei, tal como imagino que seja para quem a leia neste momento. Mas rapidamente compreendi esta caraterização. Será justo dizer que sempre passei mais tempo na escola que a maioria dos meus colegas, em virtude do facto de viver a uma grande distância da escola, muito superior a um percurso percorrível a pé, ou mesmo de autocarro.

Assim, frequentemente, de modo a reconciliar o meu horário letivo com as horas de trabalho dos meus pais ou, mais frequentemente, de transportes, permaneço na escola em períodos de tempo nos quais não tenho aulas, independentemente de manhãs ou tardes  livres.

Este contexto coloca-me numa posição privilegiada no que toca ao relatar da experiência estudantil na escola, visto que usufruí e dependi, de forma especialmente ativa, da sua comunidade e das suas infraestruturas.

Neste âmbito, no meu sétimo ano, o meu primeiro na ESPL, por volta de janeiro de 2011, iniciaram-se as obras de modernização da escola, planeadas há muitos anos, e que prometiam infraestruturas melhores, mais competentes e eficazes em providenciar aos alunos tudo o que a escola deveria providenciar. Os edifícios que a constituem são muito antigos, apesar de tudo, e a renovação adivinha-se inevitável e muito positiva, a longo-prazo.

A maioria dos alunos começou, então, a ter, algumas, se não a maioria, das suas aulas em monoblocos, contentores, em cujo interior se encontravam mesas, um quadro e computadores, para que pudéssemos ter aulas nestes (enquanto o resto das aulas continuavam a ser dadas nos pavilhões onde eram lecionadas antes das obras). Não eram a situação ideal, visto que providenciam um reduzido espaço de trabalho para os alunos, são junto  a um  campo de  jogos, o  que  favorece  distrações exteriores,  para além do  facto de as condições de temperatura serem difíceis de controlar, apesar do ar condicionado neles imbuídos.

Todavia, sendo apenas uma solução temporária, foram aceites como um mal necessário para a construção de uma escola melhor e mais moderna, que iria, no futuro, beneficiar imensamente todos os elementos da comunidade escolar. Inicialmente, as obras avançaram a um bom ritmo, e os constrangimentos dos monoblocos pareciam ser questões menores vendo-se o progresso da construção.

Quando este parou, contudo, por questões burocráticas, totalmente externas a alunos, quase de imediato a situação se deteriorou. Todas as soluções que deveriam ser de caráter temporário, nomeadamente a transferência de salas de aula, cantina, bufete e reprografia  para monoblocos, com a resultante perda de espaço e conveniência para alunos, professores e funcionários (sendo que é comum as filas para estes espaços impossibilitarem a passagem de outros, visto que o acesso a todos se situa num estreito corredor), passaram a ser permanentes e algo com que é necessário lidar todos os dias.

Contudo, os desenvolvimentos mais preocupantes ocorreram nos pavilhões mais antigos: deterioração de escadas e a queda de uma janela, com perigo de ferimentos de elementos da comunidade escolar, não foram os eventos mais inquietantes. Problemas a nível de canalização, quadros elétricos e, mais reconhecidamente, de cobertura dos pavilhões, que permitiram durante anos a entrada de água obrigaram ao fecho da escola por três ocasiões.

Todos foram resolvidos apenas quando foi atingida uma situação insustentável, mas é vital sublinhar que nenhuma das soluções permitiu o aliviar das restantes dificuldades que a escola atravessa, que se prendem a dois fatores gerais: primeiro, o estado das infraestruturas mais antigas, que já deveriam ter sido remodeladas e que apresentam graves problemas; e, segundo, a extensão indefinida de soluções que deveriam ser temporárias, com todas as sérias complicações, a nível de aulas e de funcionamento de serviços providenciados pelas escola, que daí advêm.

A situação continua a degradar-se, mês após mês, com o influxo de dezenas de novos alunos de segundo ciclo, no âmbito da integração, como escola-sede, da ESPL, no Agrupamento de Escolas de Padrão da Légua, tornando-se na Escola Básica e Secundária de Padrão da Légua (EBSPL). Como últimas ressalvas de reflexão das condições escolares, refiro ainda a falta de uma instalação própria para a Associação de Estudantes, cujo monobloco reservado foi readaptado como sala de arrumos, face às necessidades, o papel conjunto de um pequeno grupo de monoblocos, enquanto sala de estudo e polivalente e o facto de, frequentemente, o pavilhão de Educação Física alagar, impossibilitando a realização de aulas.

Contudo, durante todo este processo difícil e oneroso para a comunidade escolar, esta continuou a ter desempenhos excecionais: a EBSPL é um modelo de resultados escolares extraordinários obtidos sobre condições que são, no mínimo, não-ideais. É de notar que os alunos da EBSPL são regularmente premiados com medalhas nas Olimpíadas Portuguesas da Matemática (incluindo um aluno que recebeu cinco medalhas de ouro consecutivas), a escola possui um programa de Desporto Escolar vibrante e com sucesso, é pioneira na educação não- formal, com o desenvolvimento do projeto Parlamento Europeu Jovem (PEJ) em sessões de escola  e  encorajando,  igualmente,  uma  regular  participação  dos  seus  alunos  em   sessões nacionais e internacionais desta atividade, promovendo a cidadania e participação  democrática nos alunos.

Mesmo nas condições em que se vê obrigada a trabalhar, a comunidade escolar continua a demonstrar um enorme empenho e a participação de alunos, eu próprio incluído, em projetos externos de todo o tipo, sendo esta participação encorajada ativamente por professores e prática comum a Direção da escola tomar a responsabilidade de possíveis encargos financeiros destas.

Atividades lúdicas internas abundam, igualmente, desde a realização de saraus culturais, cafés-concerto, concursos literários e de talentos, workshops e a presença do Clube de Voluntariado, Clube Europeu e um grupo de teatro, provando-se que não só a EBSPL é uma escola de sucesso em termos de resultados curriculares, mas também um estabelecimento perseverante na promoção da educação não-formal, tendo-o feito com êxito ao longo de muitos anos.

Possuidora de uma comunidade dedicada e ativa, com professores e funcionários excecionais, falando os resultados, referidos anteriormente, por si mesmos, no que toca aos alunos, a Escola Básica e Secundária de Padrão da Légua é, muito claramente, merecedora de mais e de melhor. Todos os elementos desta comunidade foram prejudicados por decisões burocráticas das quais possivelmente não chegaram sequer a ter conhecimento em tempo devido, forçados a trabalhar em condições que muitos diriam deploráveis, sem deixar que isto afetasse de forma negativa os desempenhos escolares.

Este é o meu último ano neste estabelecimento, e independentemente de quando recomeçar a construção da escola, não irei usufruir das novas instalações. Uma graça comum das minhas irmãs era que, a renovação, que já era falada desde que elas próprias eram alunas novas da escola, ainda não estaria concluída quando eu saísse da escola, após a conclusão do meu décimo segundo ano. A ironia de uma situação, tão absurda em teoria, ocorrer na realidade só realça a frustração quanto à situação.

Assim, escrevo esta carta de modo a urgir todos aqueles que tenham qualquer influência numa potencial resolução da situação a intervir de modo a que não se repita esta experiência para os alunos que frequentam a EBSPL no presente e aqueles que nela ingressarão no futuro.

O artigo 73º da Constituição Portuguesa prevê “[…] a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais […]”. A comunidade da EBSPL é um enorme modelo de esforço e luta pelo sucesso dos alunos e todos os outros objetivos enunciados neste artigo. É urgente que as infraestruturas em que a comunidade trabalha reflitam esta realidade.

 

Com os melhores cumprimentos

 João Alves Silva

27 de maio de 2016

 

 

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